As possíveis carreiras que minha mente alcançou naquele
momento nada se comparavam ao que eu realmente concretizaria dali a alguns
anos. As memórias daquele dia em que eu decidi o meu curso universitário
voltavam para mim no mesmo momento em que finalmente eu ultrapassava Alpha
Centauri. Quem diria que um dia eu poderia viajar entre os sistemas estelares
da galáxia e considerar isso uma atividade corriqueira.
O módulo que eu habitava estava longe do que as pessoas
entendiam por nave espacial no meu planeta. Para começar, nada de aço,
propulsores, botões multicoloridos piscando, ou painéis detalhados mostrando
gráficos, distâncias e posição. A minha nave não era nada mais nada menos do
que uma bolha. Isso mesmo, uma bolha!
Na verdade, tecnicamente, era gerado por meio de um sistema
de construção de realidades ligado diretamente ao meu cérebro. A mim competia
manter um estado de calma e meditação profundos, especialmente no momento da
partida, em que eu teria que vencer a inércia psico-gravitacional do meu
planeta (um efeito estranho descoberto pelos Lunascebianos que combina a
gravidade com o somatório das energias mentais de todos os seres sencientes
daquele planeta), ao mesmo tempo que isolava minha mente das interferências
externas, o que permitia a criação da bolha e a minha segurança durante a
viagem
Descobri que o único ser do meu planeta que era capaz de
alcançar esse estado psíquico era eu. Melhor, eles descobriram. E desde então
realizo essas viagens de intercâmbio cultural e trocas energéticas. A minha
carga é, nada mais nada menos, que o conjunto das experiências interiores e
bibliotecas histórico-perceptuais de cada planeta. Confuso? Vamos dizer que, a
grosso modo, eu estou transportando pensamentos e emoções de diferentes
civilizações. Não faz ideia o valor que essa mercadoria tem para o comercio
interestelar.
É por isso que é necessário que eu alcance um estado de
meditação tão profundo, é preciso abrir espaço no campo mental da nave para uma
carga muito mais pesada e valiosa do que minhas memórias e pensamentos
particulares. Apenas raras vezes, como nessa passagem por Alpha Centauri, me
retorna uma lembrança, geralmente ligada ao passado distante, como neste
momento em que eu achava que escolhia meu destino.
Mal pensava eu que viveria
para ver a ascensão e queda de várias civilizações, pouco entendia sobre o
adeus perpetuo que teria que dar aos meus mais queridos amigos. O efeito dessas
viagens, que na verdade duram séculos, é que meu corpo continua vivo por um tempo
muito maior. De vez em quando esbarro, no já empoeirado armário das minhas
memórias antigas, com aquele sentimento-palavra: saudade. Meu consolo é que,
vez ou outra, tenho a honra de transportar esta rara joia do universo: o amor.
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