domingo, 19 de outubro de 2014

Carga Valiosa

As possíveis carreiras que minha mente alcançou naquele momento nada se comparavam ao que eu realmente concretizaria dali a alguns anos. As memórias daquele dia em que eu decidi o meu curso universitário voltavam para mim no mesmo momento em que finalmente eu ultrapassava Alpha Centauri. Quem diria que um dia eu poderia viajar entre os sistemas estelares da galáxia e considerar isso uma atividade corriqueira.

O módulo que eu habitava estava longe do que as pessoas entendiam por nave espacial no meu planeta. Para começar, nada de aço, propulsores, botões multicoloridos piscando, ou painéis detalhados mostrando gráficos, distâncias e posição. A minha nave não era nada mais nada menos do que uma bolha. Isso mesmo, uma bolha!

Na verdade, tecnicamente, era gerado por meio de um sistema de construção de realidades ligado diretamente ao meu cérebro. A mim competia manter um estado de calma e meditação profundos, especialmente no momento da partida, em que eu teria que vencer a inércia psico-gravitacional do meu planeta (um efeito estranho descoberto pelos Lunascebianos que combina a gravidade com o somatório das energias mentais de todos os seres sencientes daquele planeta), ao mesmo tempo que isolava minha mente das interferências externas, o que permitia a criação da bolha e a minha segurança durante a viagem

Descobri que o único ser do meu planeta que era capaz de alcançar esse estado psíquico era eu. Melhor, eles descobriram. E desde então realizo essas viagens de intercâmbio cultural e trocas energéticas. A minha carga é, nada mais nada menos, que o conjunto das experiências interiores e bibliotecas histórico-perceptuais de cada planeta. Confuso? Vamos dizer que, a grosso modo, eu estou transportando pensamentos e emoções de diferentes civilizações. Não faz ideia o valor que essa mercadoria tem para o comercio interestelar.


É por isso que é necessário que eu alcance um estado de meditação tão profundo, é preciso abrir espaço no campo mental da nave para uma carga muito mais pesada e valiosa do que minhas memórias e pensamentos particulares. Apenas raras vezes, como nessa passagem por Alpha Centauri, me retorna uma lembrança, geralmente ligada ao passado distante, como neste momento em que eu achava que escolhia meu destino. 

Mal pensava eu que viveria para ver a ascensão e queda de várias civilizações, pouco entendia sobre o adeus perpetuo que teria que dar aos meus mais queridos amigos. O efeito dessas viagens, que na verdade duram séculos, é que meu corpo continua vivo por um tempo muito maior. De vez em quando esbarro, no já empoeirado armário das minhas memórias antigas, com aquele sentimento-palavra: saudade. Meu consolo é que, vez ou outra, tenho a honra de transportar esta rara joia do universo: o amor.

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