terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O Forno da Confeitaria


Desta vez a gente tinha se metido na maior encrenca de nossas vidas. Nem quando minha irmã quebrou o pé nas pedras do rio enquanto brincávamos de pirata, nem quando matei com um estilingue o galo do seu Rodolfo e ele me mandou ficar ajoelhado no milho por um dia inteiro ficamos em um apuro tão grande quanto este. Na jaula que a velha me prendeu, eu só podia ficar agachado e eu já tinha me cagado bem umas duas vezes. Mas ainda me lembrava do gosto da torta de cereja que ela nos deu logo que chegamos. Parecia uma pessoa muito boa para nos receber daquele jeito. Mas naquele momento, saborear de novo aquele doce – ou qualquer outro - era a última coisa que eu queria fazer.


Como se eu tivesse escolha, a velha seguia me empanturrando com todo o tipo de guloseima: tortas, bolos de nata, biscoitos, rosquinhas e geléias. Conheci à força um monte de sobremesas das quais eu nunca havia ouvido falar. Bombas de chocolate, pasta de nozes e brownies seriam a razão de muita alegria se eu tivesse em outro lugar que não aquele. A fome foi nossa companheira na maior parte de nossas vidas antes de chegarmos àquela estranha situação. Lá em casa, a comida sempre foi regulada e nos invernos passávamos dias sem comer. Até que o número de bocas famintas no mesmo teto teve que diminuir...

Enfim, fomos rejeitados, essa era a dura realidade. Este era o ferro frio das grades da jaula prensando o meu corpo. Era a dor aguda no pescoço curvado. Daquela posição incômoda, via Maria entrar e sair da cozinha. A velha a obrigava a trabalhar sem parar. Lembro de poucas vezes em que o vai e vem se acalmou e a pobrezinha pôde descansar. De qualquer forma, só podia ver um pedaço de toda cena. Maria vinha andando rápido segurando pela alça uma espécie de chaleira cheia de óleo: ela abastecia o forno bem a minha frente e em seguida acendia com um chumaço de palha.

Também ouvia o barulho que ela fazia atrás de mim quase o tempo todo. Ouvia batidas incessantes como um martelo pesado, um som de serra que parecia cortar ora um tecido grosso, ora um queijo macio e algumas vezes um galho de árvore bem duro. Gotas pareciam cair a todo momento como se houvesse um varal de roupas sempre molhadas atrás de mim. Mas o que mais incomodava era o cheiro que por vezes me turvava a vista e travava o estômago. Dormia pouco, mas Maria dormia menos ainda. Não me lembro de estar acordado sem ouvir os movimentos dela.

De início estranhei o fato de que nada além da enorme caldeira com o óleo que Maria carregava na chaleira o tempo todo fervia no forno à minha frente. Depois, por explicações esparsas e rápidas de minha irmã e do que pude de relance observar no mecanismo exposto à minha frente, consegui entender o que acontecia. O vapor formado pela caldeira entrava em tubulações e subia até o andar de cima. Lá ele aquecia as bandejas com os doces e bolos que a velha preparava e, em seguida, vendia. Perguntei para Maria de onde vinha aquele óleo estranho de cheiro acre que fazia funcionar a estranha engenhoca. Nesse momento a cor do seu rosto sumiu, ela simplesmente me ignorou e tentou voltar ao trabalho.

O tempo que permanecemos naquela condição foi muito maior do que nossos sonhos mais terríveis poderiam prever. Maria continuava trabalhando incessantemente, seu semblante estava cada vez mais deprimido, as carnes sumiam do rosto e o desespero parecia se instalar definitivamente em seus olhos. Vez ou outra, escutava os gritos estridentes e raivosos da velha, sem conseguir entender o que exatamente a tirana balbuciava. Quanto a mim, em certo momento já não conseguia mais sentir algumas partes do meu corpo. Ainda era obrigado a comer os pratos que a vil senhora me preparava. Estava ficando cada vez mais gordo, a ponto de partes minhas escapulirem pelas frestas da jaula.

Voltei a mim depois de um sono leve e assombrado com Maria gritando ao meu ouvido:

- João, querido, escute: a velha está vindo e você precisa fazer exatamente o que eu disser! – ela retirou do bolso do avental um pequeno osso e meu deu.

- Ela vai mandar você mostrar o dedo mindinho para que possa apalpá-lo. Não faça isso, mostre o ossinho no lugar! Ela não pode saber que você já está gordo o suficiente... – Maria se calou quando ouviu passos descendo pela escada, antes que eu pudesse perguntar o que ela queria dizer com “gordo o suficiente”.

A velha aproximou-se de mim esbravejando com a mesma delicadeza com que me obrigava a comer todos os dias.

- Menino, mostre-me o dedo. Preciso ver se já está pronto. – segui o conselho de Maria e estiquei o ossinho para fora da jaula. A mulher o apalpou durante algum tempo, resmungando baixo alguma coisa e apertando os olhos.

- Ora, menino imprestável, mais parece um esqueleto! – dizendo isso, sacou uma rosquinha do bolso em enfiou-me goela abaixo.

- Precisa comer mais e com vontade, seu pestinha! O que eu faço com você?! Meu estoque está quase acabando! – continuou murmurando qualquer coisa e se afastou, subindo novamente as escadarias.
Naquele momento eu era só confusão e atordoamento, mas diante do meu desespero Maria olhou-me nos olhos com o ânimo aparentemente recuperado:

- Não se preocupe irmãozinho, nós vamos sair daqui logo.

Não passou muito tempo até que ouvi novamente os passos da velha e de Maria descendo as escadas. A bruxa gritava sem parar e o barulho de tapas fortes parecia reverberar por toda a casa. Baixinho, eu ouvia o choro contido de minha irmã.

- Sua incompetente! Que faço eu com uma empregada que quebra meu forno desse jeito estúpido?! E nem ao menos sabe reparar o prejuízo que fez.

- Mas senhora, o sebo parece que incrustou dentro do cano. Por mais que eu esfregue, ele não quer sair...
– Maria foi interrompida por um tapa mais forte na nuca, que a fez curvar-se e derramar as lágrimas que ainda se equilibravam no olho.
- Vou lhe mostrar como se faz, sua pequena vadiazinha. Da próxima vez que isso acontecer, saiba que irei cortar-lhe um dedo fora.

A velha subiu em um banquinho e meteu a cara nas tubulações logo acima da caldeira borbulhante – a mesma que Maria reabastecia com o óleo a todo o momento.

- Mas o que! Não tem nada de err... – Maria puxou o banco em que a velha se equilibrava antes que ela pudesse terminar a frase. O movimento brusco a lançou direto no líquido fervente.

Cheguei a ouvir um grito abafado e a velha esperneando em agonia. Diante da mesma cena que ainda hoje me embrulha o estômago, via em Maria apenas um olhar frio e controlado. Reagindo a uma última tentativa de fuga, minha irmã não hesitou em empurrá-la pelas pernas ridiculamente suspensas mais para dentro da caldeira. Durante alguns segundos Maria continuou segurando a velha com força até que os movimentos parassem por completo.

Logo depois Maria a soltou e, bem devagar, deu um passo para trás. Depois paralisou, ficou lá – estática – sem ação durante uns bons minutos. Todo o brilho que tinha no olhar parecia ter se esvaído completamente. Mas, aos poucos, ela foi voltando a si. Arrastando as chinelas ela saiu do aposento sem falar nada, subiu as escadas e pouco depois voltou com um molho de chaves nas mãos.

Agachou-se à minha frente e abriu o cadeado que me manteve preso durante todo esse tempo. Saí lentamente da jaula, meu corpo relutando em voltar à vida. Maria pegou-me pelos braços e ergueu-me lentamente. Quando finalmente consegui ficar de pé, minhas pernas vacilaram novamente diante do que vi. Por um instante desejei o suspiro final para que aquela cena pudesse ser arrancada da minha mente.
Mas isso é impossível. Ela permanece até agora dentro de mim. Os corpos despedaçados ao longo das bancadas: crianças como eu, bem alimentadas, gordas. As carnes mais gordurosas, infladas pelos doces da velha, estavam penduradas em ganchos, pingando por cima de bacias onde se acumulavam o mesmo óleo amarelado que alimentava o forno.

Esse era o terrível negócio da bruxa confeiteira. A gordura dos corpos servia de combustível e dava um sabor inigualável às sobremesas. Era o sabor dos enjeitados e esquecidos do mundo. O gosto daqueles para os quais não se derramam lágrimas de luto ou dor.

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