O embate com o rei Zu Fan estava marcado para aquela manhã, antes do sol nascer. Das camas nos mandaram depressa para o refeitório, onde recebemos somente um copo de leite com mel e uma tigela rasa de arroz. O dia estava frio, mas não havia tempo a perder. De lá, corremos para a porta sul, pequena saída para tropas que evitava o uso do portão principal. No túnel que levava a ela recebemos escudos e espadas. O capataz que nos entregava o armamento repetia a cada um que passava: “Lute com bravura! Morra com honra!”.
Quando chegamos ao lado de fora o cenário era assustador. Os inimigos formavam uma coluna a nossa frente que parecia preencher todo o horizonte. Era possível reconhecer uma infinidade de estandartes com o símbolo da lua e do machado. As nuvens, que cobriam todo o céu, tinham uma coloração vermelha, que se confundia com as flâmulas do oponente. Estas, por sua vez, pareciam ligar-se ao chão de barro seco alaranjado.
Um oficial nos guiou e ordenou que formássemos um grupamento de cinco por vinte. Fiquei na terceira fileira aguardando. Outros grupos tomavam suas posições a nossa volta. Podia-se ouvir o som dos tambores inimigos ao longe. Torres de abordagem gigantescas se erguiam da massa de homens que formava o exército a nossa frente. Não sabia se tremia de medo ou de frio.
Subitamente, ouvi o zunido das flechas. Olhei para cima e vi milhares delas voando da muralha atrás de nós em direção ao exército inimigo. Algumas pareceram atingir o alvo, pelos gritos que ouvimos pouco depois, boa parte, porém, ricocheteou nos escudos. Parecia que o nosso momento estava chegando. Meu ânimo crescia acompanhando a batida dos nossos tambores, que começavam a rufar, no começo num ritmo lento, depois numa batida forte e vigorosa. Continuava tremendo, mas desta vez de excitação.
Uma corneta soou na fortaleza, era o sinal para atacarmos. Um urro de fúria emergiu das nossas gargantas e começamos a correr. Em poucos instantes as tropas se chocaram. Vi dois dos nossos caírem a minha frente. Logo surgiu diante de mim um homem erguendo um machado, pronto para enterrá-lo na minha cabeça. Bloqueei a tempo com meu escudo e o degolei. Nesse momento fui tomado por um frenesi incontrolável. Corri para o próximo oponente e, sem muita dificuldade, o derrubei. Fiz o mesmo com mais uns cinco. Parecia que não era mais eu que ali estava, mas uma fera sedenta de sangue.
O torpor em que me encontrava só foi interrompido com o barulho de uma explosão. Um bólido lançado por uma catapulta atingiu uma das torres de abordagem que avançavam perto de mim. Olhei para o lado e vi o gigante de madeira caindo em minha direção, depois não vi mais nada.
Acordei com o som da chuva algum tempo depois. A minha volta só via cadáveres. O ambiente era nauseante e meu corpo estava fraco. Olhei em direção ao castelo e vi que agora tremulava a bandeira de Zu Fan. Fui, então, cambaleando em direção a ele.
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