Era uma vez o pássaro que caiu. Ele costumava voar majestosamente. Descrevia curvas e pirueta sinuosas e belas no ar. Era capaz de mergulhos ousados dos quais arremetia a poucos centímetros do chão. Ao mesmo tempo, permanecia dias planando no ar sem precisar comer nem beber em épocas de migração. Tinha um vigor de fazer inveja a todos os seus primos e primas. A sua habilidade e força fazia jus às asas poderosas que a natureza lhe deu.
Houve, contudo, um trágico dia. Um fim de tarde em que voava tranquilamente sobre a relva. O pássaro não exibia sinais de medo ou receio e permanecia brincando – subindo e descendo, e inventando giros novos que ninguém imaginaria que uma ave poderia realizar. Foi quando subitamente ele foi alvo da arremetida de um gavião. Escapou por pouco, graças a sua incrível agilidade. Suas asas, porém, foram feridas, e ficaram irremediavelmente incapacitadas.
Acordou mais tarde, metido no oco de uma árvore aonde fora arremessado pelo impacto. Percebeu que não podia mais voar, apenas caminhar. Viu-se obrigado a descer da árvore de galho em galho, com cuidado desmedido, já que não tinha nem o equilíbrio nem a confiança de outrora. De volta ao chão, teve que se alimentar de minhocas e vermes que em nada lembravam as suculentas libélulas que era capaz de apanhar em pleno ar – ou os frutos carnosos que colhia nas mais altas árvores. Com o passar do tempo, esqueceu-se que um dia foi capaz de voar...
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