quinta-feira, 4 de agosto de 2011

DESAFIOS LITERÁRIOS I

Há alguns meses propus a mim mesmo três desafios literários com o objetivo de exercitar minhas habilidades escritas e sair da zona de conforto. Recentemente finalizei o primeiro deles, que posto hoje nesse blog. No conto  um comerciante dá conselhos ao seu aprendiz sobre a melhor forma de lucrar e acaba revelando seus próprios preconceitos. Eis o conto:

O MERCADOR


Mais que maravilha, meu jovem! Chegou a hora de lhe passar um pouco do meu conhecimento. Como humilde comerciante e capitalista instruído, nessa cidade perdida no tempo, sinto que devo repassar minha experiência para um aprendiz. E nada melhor para aprender do que observar as pessoas com quem vivemos. São simples, eu diria simplórias, ainda atrasadas e sem conhecimentos das maravilhas da modernidade. Devemos entender a posição delas. Mas da nossa posição, saber aproveitar da sua cegueira é um bom negócio. Vamos lá, pequeno, à primeira lição.


Dona Lucélia é muito ignorante e sempre busca remédios naturais e fórmulas secretas para curar seus males. Nunca vi velha mais inventiva e esperta para criar doenças. Cada vez me aparece com um novo incômodo. Não se faça de rogado, para dobrar a velhinha basta inventar a cada dia um remédio. Uma vez vendi para ela o mesmo tônico três vezes, apenas colocando um tingimento diferente. Na primeira era tônico concentrado de mel e casca de laranja, na segunda, xarope de groselha com cravo e gengibre, por fim, um emplastro de agrião. Essa é a esperteza do vendedor que tem conhecimento. Sabe o que fazer porque conhece o mundo, o que ninguém tem a valentia de fazer nessa cidade.


O guarda Armandinho acha que é a lei por aqui. Pensa ser o guardador da moral e o punidor de todos os gatunos. Só que ele mesmo não vale um vintém furado. Sempre flertando, chegou a vomitar floreios boçais para minha filha querida. Mas com todos os defeitos ele é um bom freguês. Sempre interessado em conhecer as novas modernidades que a vida da cidade traz à Tamanduacá pelas minhas mãos. Lembro-me de quando comprou um telefone, era o único da cidade na época. Só que o pobre não sabia nem contar direito, que dirá operar a máquina. Tive que lhe ensinar. Aprendi como fazer na capital enquanto buscava novidades – uma semana antes da ultima Páscoa. Ensinei-lhe a tomar nota dos números e a dar as instruções corretas para a telefonista, como fazer reparos e evitar problemas comuns. É impressionante como o danado aprendeu rápido. Pena que a falta de serviço telefônico na cidade o impede de fazer uso das novas habilidades. Mas, enfim, espero que meus esforços em disseminar os maravilhosos conhecimentos e engenhos da indústria sensibilizem o governador a trazer a tão necessária estrutura.


O que eu quero que você entenda com essa estória, jovem. É que as limitações de entendimento e cultura dos nossos conterrâneos também são matéria prima dos nossos ganhos. Cursos, por exemplo, dar cursos é uma boa tática! Os cursos são famosos na capital. Muitas dos mais modernos e refinados senhores e senhoras buscam cursos: de datilografia, de operador de telégrafo, de mecânica. Foi a primeira vez que dei um. Estou planejando outro. Vou ensinar às beatas da igreja a fazer salames. Já comprei uma moderna prensa para isso e estou aprendendo a operar. É mais fácil para quem convive com novas máquinas e os engenhos mais recentes trazidos do velho mundo para a capital. Por isso aprendo mais rápido e vendo o que aprendi para quem está interessado.


Lembrei-me agora do mestre de obras e engenheiro da cidade Felipe Trajano. Engenheiro é bondade da nossa parte é claro. Ele foi estudar para formar-se em Paris. Ficou dois anos e meio lá, mas conta-se que apenas bebeu e frequentou cabarés e as moças fáceis daquele país. Gastou todo o dinheiro que os pais herdaram de um tio fazendeiro que tinham. O velho passou para os pobres coitados uma propriedade com o solo seco e que não dava mais pé de feijão sequer. A única coisa de valor era um pote cheio de dobrões antigos de ouro da época colonial. O pai resolveu gastar todo montante que conseguiu da venda das moedas na educação do filho. Pena que não deu certo.


Pois bem, o fato é que mesmo burro, Trajano ganhou notoriedade como doutor. Anda agora colado ao prefeito como um assistente do gabinete. Ele faz o desfavor de assessorar o político em suas tão mal afamadas obras que vão trazer para Tamanduacá a “modernidade e o progresso”. Um exemplo disso é a estrada para carros, que hoje é pavimento de jumentos. O excremento dos animais decora os poucos metros de concreto e asfalto que já dão à entrada da cidade a imagem sem sentido da via que leva o nada ao mesmo nada.


Mas a ingenuidade alheia é ganho dos vivazes, meu caro aprendiz! Sou um grande negociador e não desperdiço uma oportunidade de lucro. Como um bom mercador, mantenho contatos valiosos e os cultivo em minhas viagens. Conheci um fazendeiro em Recanto Manso que havia descoberto uma pedreira nas suas terras, era rocha de péssima qualidade. Ele usou parte para pavimentar um passeio da propriedade, mas não sabia o que fazer com o resto. Propus comprar um carregamento de dois carroções a um preço módico.


No afã de modernização do prefeito lá estava eu para salvar o dia. O velho encomendou ao bom engenheiro Trajano a reforma da igreja matriz. Qual não foi a surpresa do rapaz ao descobrir que eu acabara de chegar com um carregamento de granito de primeira trazido direto das Minas Gerais. O infeliz nem notou a real natureza do material, mais uma prova da sua imbecilidade. Por via das dúvidas, passarei a frequentar apenas as missas da capital.


A comilança também não deve ser esquecida. Gula é o pecado mais lucrativo. Não sendo o autor do pecado, não há mal em tirar dividendos da incontinência alimentar alheia. Aroldo Antunes é o nosso glutão municipal. Dizem que uma vez já foi contratado como assistente de padeiro. Era responsável pelas entregas. Pedalava todo o dia pela cidade uma bicicleta empenada, incomodando a vizinhança com  um rangido estridente. Contudo, os poucos que realmente recebiam a entrega nunca viram garrafa de leite cheia ou pão sem mordida. 


Não é de se espantar que foi demitido logo no primeiro mês. Voltou para debaixo da saia da mãe, beata remediada, viúva de magnata que fez fortuna com minas de ferro. Agora o dinheiro da velha serve apenas a alimentar a pança do filho. O perdido já passou dos trinta e vive apenas metido em rosquinhas e quitutes preparados por ela. Os ingredientes são naturalmente comprados na minha humilde mercearia. Além disso, o próprio Aroldo é presença garantida todos os dias. Compra biscoitos, doces, bolos, refrescos, salgados e pães. É impressionante a voracidade do menino - entra mastigando e sai mastigando. Ignoro se faz outra coisa da vida.


Uma certeza que temos na vida - além da morte - é que Aroldo come o que quer que dêem para ele. Apenas diante da mera sugestão de que algo é comestível os seus olhos se arregalam e a baba começa a escorrer. Ele pode achar ruim, reclamar, mas só depois que toda a comida estiver no seu estômago. O bom Aroldo é meu termômetro. As novas variedades de alimentos que chegam à mercearia têm que primeiro passar pelo aval do balofo antes de  sequer entrar no mostruário. Basta dizer as palavras mágicas – temos novidades hoje Aroldo – que ele vem correndo. Ao menos para alguma coisa ele serve.


Mas nenhum é servo mais leal aos meus objetivos do que o prefeito dessa cidade. É um parvo, certamente, mas dos males é o menor que o município teria se tivéssemos outro no lugar. Leonildo Cavalcanti foi eleito a mais ou menos dois anos e meio com a minha ajuda. Fui eu que financiei o caixa de campanha e além disso dei grande contribuição para ajudar algumas pessoas a decidirem na hora de assinar o voto. 


O dinheiro que me devem os três maiores fazendeiros da região foi o bastante para que eles dessem um empurrãozinho para que toda a criadagem deles - metade da população da cidade - soubessem em quem votar.No fim das contas, Leonildo estava na prefeitura e sabia exatamente onde fazer as compras de governo. Meu leal servidor não me decepcionou, em poucos meses os outros dois merceeiros estavam completamente arruinado e a concorrência estava sob controle. 


Viu meu caro, a maior lição que não é como devemos vender, mas o que devemos comprar. Devemos comprar confiança... e favores. No mais, quem perde com isso no meio do caminho e por incompetência própria. Ganhar é a regra, o lucro empenho de uma vida e estar sempre a frente é um dever. Que os outros sofram com isso é resultado de sua própria ignorância - que fossem mais espertos e poderiam amealhar minha posição! Não ganhei tudo que tenho hoje de graça foi a custa de muito esforço

Competência e amor pelo trabalho são as palavras de ordem nos dias atuais. Certamente eu sou o único com a integridade e a fibra para elevar o nível moral deste pobre lugar esquecido por Deus. Veja só esses exemplos que te apresento agora. Quão simplórias são essas pessoas, rapaz! Por isso quero que aprenda com meus passos e siga minhas orientações. Você, jovem, é a escolha perfeita para me suceder. O trabalho do capitalista é ser o motor da sociedade. E essa é a nossa missão meu caro jovem, como pessoas instruídas.



Abaixo os passos que tracei para chegar ao texto final.

Primeiro escrevi o argumento do conto - explicitando o que queria escrever:

MERCADOR – Um comerciante  enumera as qualidades e habilidades que garantem boas vendas e o sucesso dos negócios. Vou buscar reproduzir não apenas conceitos e terminologias da área, mas principalmente criar uma personalidade verossímil – em sintonia com as características emocionais e psicológicas de alguém do ramo.

Depois de fazer um brainstorm desenvolvi mais o personagem em um parágrafo e em outro tracei o cenário onde ele estaria inserido:

Desenvolvimento - O mercador vê-se como alguém ligado no que acontece no mundo e se sente porta-voz dos avanços do mundo moderno, mas é tão provinciano quanto qualquer conterrâneo. De tal forma, leva ao aprendiz as lições das vendas e do comércio. Para ele a principal é justamente pensar em primeiro lugar nos seus próprios ganhos, enquanto faz com que o cliente pense estar ganhando bastante. Para defender sua tese ele toma como exemplo figuras da própria cidade, revelando assim seus próprios preconceitos.

Cenário (Alternativas) - O mercador vive em uma pequena cidade do início do século XX. À sombra do crescimento de um grande centro (Rio Janeiro; São Paulo; ou outra) o lugarejo absorve de forma tímida os avanços da metrópole. Telefone, energia elétrica, rádio, chegam a cidade pelas mãos do mercador como uma grande novidade. Mas na maior parte das vezes ela não pega. Os moradores não entendem aqueles avanços, e na verdade o próprio mercador não entende. Todos os fracassos, contudo, o pobre homem atribui a falta de visão de seus conterrâneos.

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