sexta-feira, 26 de agosto de 2011

O pássaro que caiu (Completo)

Encontrei o final para o conto do pássaro e para alegria geral o bichinho foi salvo. Tudo que foi preciso para eu descobrir o destino dele foi cortar fora um advérbio: irremediavelmente. Sem isso teria que me contentar com outros finais bem forçadinhos - como um em que o pássaro aprendia uma nova "superhabilidade" para compensar a perda da capacidade de voar. Bem, como vocês verão, fez toda a diferença. Comparem com o post antigo aqui. Enfim, leiam e deleitem-se:

Era uma vez o pássaro que caiu. Ele costumava voar majestosamente. Descrevia curvas e pirueta sinuosas e belas no ar. Era capaz de mergulhos ousados dos quais arremetia a poucos centímetros do chão. Ao mesmo tempo, permanecia dias planando no ar em épocas de migração sem precisar comer nem beber. Tinha um vigor de fazer inveja a todos os seus primos e primas. A sua habilidade e força fazia jus às asas poderosas que a natureza lhe deu.


Houve, contudo, um trágico dia. Um fim de tarde em que voava tranquilamente sobre a relva. O pássaro não exibia sinais de medo ou receio e permanecia brincando – subindo e descendo, e inventando giros novos que ninguém imaginaria que uma ave poderia realizar. Foi quando subitamente ele foi alvo da arremetida de um gavião. Escapou por pouco, graças a sua incrível agilidade. Suas asas, porém, foram feridas, e ficaram incapacitadas.


Acordou mais tarde, metido no oco de uma árvore aonde fora arremessado pelo impacto. Percebeu que não podia mais voar, apenas caminhar. Viu-se obrigado a descer da árvore de galho em galho, com cuidado desmedido, já que não tinha nem o equilíbrio nem a confiança de outrora. De volta ao chão, teve que se alimentar de minhocas e vermes que em nada lembravam as suculentas libélulas que era capaz de apanhar em pleno ar – ou os frutos carnosos que colhia nas mais altas árvores. Com o passar do tempo, esqueceu-se que um dia foi capaz de voar.


A lida diária tornou-se deveras dura. O esforço que desprendia para comer era o dobro – o triplo – do normal. Em contrapartida, o alimento mal chegava à metade do que antes punha no estômago. Não que isso importasse ou fizesse qualquer diferença para ele naquele momento. Na verdade, não se sentia muito diferente dos bichos rastejantes que era obrigado a devorar todos os dias.


Até que veio a tempestade. O pequeno animal, tomado de pavor, escondeu-se embaixo do primeiro abrigo que encontrou. Não era bom. Era vazado e permitia que parte do vento e da água atacasse as penas do pássaro. Ficou encolhido e tremendo por um bom tempo. Quando a chuva amainou, adormeceu.


Acordou ainda atordoado e exausto. De olhos apenas entreabertos deixou-se estar ali, sem forças. Ouviu passos e pouco depois o sol sumiu atrás do rosto de uma criança. Ela pegou o pássaro nas mãos e o pôs no colo. O pássaro ficou com medo, mas não apavorado como a pouco, faltou-lhe energia para tanto. Com o tempo, mesmo esse medo se dissipou e foi substituído pelo calor do colo da criança. Os carinhos que ela oferecia embalaram o sono da ave mais uma vez.


Acordou. Desta vez uma mão mais grossa o agarrou e esticou a força a asa direita, depois a esquerda, e nessa última passou uma espécie de lama fria. O unguento começou a arder e o pássaro a piar baixinho. Tinha se esquecido disso também. Esqueceu-se do próprio canto. Pois para que cantaria se os prazeres do vôo foram a muito tirados de si? Esquecer-se de uma experiência era também se esquecer da outra. Agora, porém, o pio era apenas um reflexo diante da dor que sentia.


Voltou ao colo da criança – e ela o acariciou mais uma vez. Começou a falar de forma meiga e confortante. Dessa vez, contudo, o aconchego não durou muito tempo. Vem de novo a mão grossa e o joga dentro de uma gaiola. O lugar é pequeno e – tomado de angústia – o pássaro começa a subir e descer aos pulinhos nas hastezinhas de madeira entre as grades. Em pouco tempo cansa e volta para o chão. O adulto que lhe aplicou o unguento a pouco volta e coloca dentro da gaiola uma vasilha com um punhado de grãos. O olfato de pássaro se atiça e ele corre ao alimento e come com avidez.


Essas cenas se repetem muitas e muitas vezes. O colo da criança. O adulto. Os grãos. Pulinhos na gaiola. Noite. Dia. Noite. Mais uma vez o pássaro se esqueceu da vida antiga. Todo aquele conforto, aquele carinho, era tudo o que tinha, e era bastante.


Mas veio  anunciada pelo vento uma nova tempestade. Mais que vento, um vendaval pareceu abalar o mundo. A criança chora enquanto o adulto a puxa para longe. Os dois se vão. Fica o pássaro tendo mais uma vez um profundo pavor como companheiro. A gaiola balança, balança, cada vez mais violentamente, até que cai. A portinha se abre e a ave, com o susto, bate as asas e voa. Esconde-se num buraco na parede e ali fica até a chuva passar. Com os primeiros raios de sol arrisca-se a sair.


A beira da janela olha o mundo, as majestosas árvores, o canto do grilo, e o som da brisa... chamando. Olha para baixo e vê um mosquito alçar vôo. Mergulha, apanha o mosquito com o bico, e voa até um galho alto. Depois que termina a refeição olha em volta. Vê o sol elevando-se no horizonte. Voa em direção a ele e – pela terceira vez – esquece.

2 comentários:

  1. "Voa em direção a ele e – pela terceira vez – esquece."

    Adorei essa última frase. Me deu uma sensação boa - de q toda aquela vida sofrida de privação da liberdade e do prazer de voar ficou definitivamente pra trás. Que bom q o passarinho teve um final feliz =) Espero q seja assim conosco tbm, quando recuperarmos nosso dom de voar e esquecermos de como é ser obrigado a ficar no chão.

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  2. Grato, pelo comentário, Carol. Realmente, em todas as vezes que ele esquece quis dar a impressão daqueles momentos de ruptura - quando deixamos o passador para trás para viver uma nova vida.

    Abs!

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