terça-feira, 6 de setembro de 2011

POESIAS IV

ORÁCULO

A poesia é para mim o revelar,
Da fala escondida a sussurrar,
verdade que a lua a de contar,
Em dia que voz dela emanar,
Na noite que o céu não mais estar,
Há vista dos homens a orar,
Por paz na vida que virá.

A poesia é para mim o despir,
Abandonar das vergonhas do vestir,
Do instante em pelo se exibir,
O escondido da alma colorir,
Em vivas quentes cores e ir,
Ao encontro do que antes escolhi,
Proteger dos olhos a ferir.

A poesia é para mim o tatear,
Revolver a terra a procurar,
Raro tesouro lá está,
Palavras seladas sob o olhar,
Murmúrios sem  letras a cantar,
Clamando aos ouvidos decifrar,
Oculto sentido desvelar,
E aos versos enfim retornar.

A poesia é para mim o percorrer,
A trilha escondida para ter,
Com o sábio eremita a tecer,
A lã de segredos receber,
Uma mensagem oculta perceber,
Dos vãos da memória esquecer,
E as tristes muralhas derreter,
O pútrido lodo perecer,
E nas velhas promessas volto a crer,
Quando a frágil luz por fim ver.

A poesia é o mais antigo,
Pedaços de eterno enterrados,
No espírito e alma incrustados,
Sentimentos-versos guardados,
Sob camadas e camadas,
De inglório caminhar,
Do mais vil verme a arrastar,
O cotidiano a enrolar,
Fitas e fitas a cegar,
Inocentes olhos que vêem,
A bela e persistente verdade,
Flama jovem, mas perene.

NESS

Busco pistas de mim mesmo para compor um novo eu,
O mesmo ser que a muito habita as profundezas,
Como o monstro escocês insinua-se,
Confunde a percepção e instiga a dúvida,
Como lenda apresenta-se e arroga-se com orgulho inexistente,
Silhueta dúbia mostra-se ao aterrorizado pescador,
Mas ao final perde-se no rol de impressões vívidas,
E o pescador perplexo questiona seus próprios olhos.

ARMISTÍCIO

Deponho minhas armas,
Mas ainda assim derrubo muralhas,
A nudez me fortalece,
Armaduras separam da fonte,
De que me servem espadas e foices,
Que me fazem fraco,
De que me serve a cidadela fortificada,
Que me torna imóvel,
De que me serve o mais prudente escrúpulo,
Que me impõe amarras,
O cair da pena abala toda a terra,
O sopro da brisa desfaz montanhas,
A frágil flor resiste a eras,
E os pés descalços sempre atravessam,
As mais vastas planícies.

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