segunda-feira, 19 de setembro de 2011

BATALHA II


O conto abaixo foi escrito na mesma época que esse, e também não tem título. Um é continuação do outro. Este termina com um gancho muito bom e considero seriamente dar prosseguimento à história. Enfim, enquanto isso não acontece, divirtam-se:


Berros de dor e agonia. Foi a primeira coisa que ouvi quando voltou-me a consciência. Estava numa espécie de tenda cheia de bacias fumegantes e leitos onde os feridos contorciam-se. Logo percebi que meu corpo também não estava em bom estado: minha cabeça parecia estar rachada e eu sentia uma dor enorme na coxa esquerda. Minha voz, então, juntou-se àquele coro de condenados.


Fui ajudado sem demora. Senti que passavam uma pasta na minha perna e aquilo doía ainda mais. Antes que eu pudesse gritar, porém, enfiaram-me uma bebida estranha goela baixa. Aquilo diminuiu a dor e, em poucos instantes, peguei no sono novamente.


Quando levantei a dor tinha passado, sentia até um leve bem estar. O ambiente estava mais calmo, os poucos que permaneciam nos leitos estavam dormindo. Sai daquele lugar e me deparei com um cenário estranhamente agradável, era manhã de clima ameno, o sol mal começara a despontar no horizonte. Muitas tendas semelhantes a que estava foram erguidas. Via soldados e oficiais de Zu Fan por toda a parte, mas também mulheres e até crianças brincando. Tinha a impressão que viajara para uma terra distante, porque não podia entender o que aquelas pessoas estavam falando. A despeito disso, as muralhas do forte e o campo de batalha a frente delas denunciavam que não havia sido deslocado.


Perto dali havia um grupo de mulheres sentadas no chão conversando. Quando me viram, uma delas levantou-se e veio em minha direção. Era linda. Não parecia fazer parte do povo de Zu Fan, tinha cabelos dourados e busto cheio. Fiquei extasiado com sua beleza e por pouco não percebi quando ela já estava na minha frente, falando algo incompreensível e apontando para minha perna esquerda. Naquele momento me dei conta que havia uma ferida enorme na coxa. Ela então me empurrou suavemente em direção à tenda e fez um gesto indicando que eu voltasse para o leito e descansasse.


De fato ainda não estava tão bem quanto aparentava naquele momento. Muitas vezes mais tive que suportar dores horríveis. Por vezes, queria levantar mais não conseguia me manter de pé. Não sei quantos dias permaneci naquele estado. As artes curativas daquele povo eram, porém, espetaculares, de modo que, pouco a pouco, recuperava minhas forças.


Houve uma noite em que pude constatar, com clareza, os efeitos dessa recuperação. A mesma mulher que tinha visto outro dia estava trocando meus curativos. Observava eu os seus trejeitos e suas formas. Era muito diferente das mulheres que costumava ver nessas terras. Seus lábios eram vermelhos e grossos, meu espírito ansiava por prová-los o gosto. Chamei-a para perto e logo quando a distância permitiu puxei-a pelo braço e beijei-a. No início ela resistiu, mas logo se entregou ao deleite daquele instante. Pude consegui dela, naquela noite, os prazeres que desejava.


Em verdade, aquela foi a melhor noite que eu passei desde que essa época de guerra e caos teve início. Cerca de dois dias depois daquilo já me era permitido, e eu já me sentia capaz, andar livremente pelo acampamento. Estava curioso para saber o que iriam exigir de mim, pois era evidente que todo aquele tratamento não seria de graça.

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